Patologização e invisibilidade: reconhecimento das demandas e acolhimento da população LGBT na Atenção Básica

Autores

  • Rita de Cássia Passos Guimarães Universidade de Brasília - UNB
  • Claudio Fortes Garcia Lorenzo Universidade de Brasília
  • Ana Valéria Machado Mendonça Universidade de Brasília

Palavras-chave:

Atenção Primária à Saúde, Comportamento Sexual, Estigma Social, Política de Saúde, Capacitação Profissional

Resumo

O presente artigo teve como objetivo analisar a percepção de profissionais da atenção básica, sobre o reconhecimento de demandas e o acolhimento dado à população LGBT, buscando investigar a influência da Sciencia Sexualis, tal como descrita por Foucault, na construção e manutenção de estigmas dirigidos a esta população. A pesquisa envolveu 32 Unidades de Saúde da Família nas regiões Centro-Oeste e Nordeste do País, onde foram entrevistados 21 médicos (as), 22 enfermeiros(as) e 11 ACS. A análise de discursos foi feita pelo método de Pechêux. Concluiu-se que o estigma, presente no senso comum da sociedade, é potencializado e racionalizado pela Scientia Sexualis contemporânea, a partir de suas classificações psiquiátricas e de suas análises estatísticas dirigidas à compreensão de grupos de riscos, o que, por sua vez produz uma generalização estereotipada que limita as demandas de saúde da população LGBT às IST/AIDS, e atribui a seus membros, outros comportamentos moralmente condenáveis, tais como abuso de drogas e promiscuidade sexual. Além disso, foi patente o desconhecimento da noção de equidade, o que provoca um discurso vazio e inoperante de afirmação da igualdade e universalidade,ao mesmo tempo em que nega a necessidade de ações específicas para a população LGBT.

Biografia do Autor

Rita de Cássia Passos Guimarães, Universidade de Brasília - UNB

Doutora em Saúde Coletiva pela Universidade de Brasília (Departamento de Saúde Coletiva), graduada em enfermagem pela Universidade Católica de Salvador, tem especialização clínico-cirúrgica sob a forma de Residência, tendo atuado durante muitos anos em assistência intensiva e hospitalar, migrando para as áreas de promoção e prevenção da saúde e pesquisa em saúde coletiva. No campo das Artes, tem curso técnico em interpretação teatral e Mestrado em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (nota 6 CAPES), com interesse especial pelo gênero trágico. Seus estudos e pesquisas atuais concentram-se na área de Saúde Coletiva, Pesquisa Qualitativa, Gênero e Saúde e no uso da dramatização como ferramenta para potencializar programas de Comunicação e Educação em Saúde.

Claudio Fortes Garcia Lorenzo, Universidade de Brasília

Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal da Bahia (1987), Mestrado em Medicina e Saúde pela Universidade Federal da Bahia (1998), com concentração em Bioética e Doutorado em Ética Aplicada às Ciências Clínicas pela Universidade de Sherbrooke, Canadá (2006). É professor adjunto do Departamento de Saúde Coletiva da UnB, Professor do Programa de Pós-Gradução em Bioética e do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva na mesma universidade. É membro do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências da Sáude da UnB e primeiro secretário da Associação de Docentes da Universidade de Brasília. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB) no biênio 2011-2013 e é membro do Conselho Assessor da REDBIOÉTICA para América Latina e Caribe da UNESCO. Tem experiência na áreas de Bioética e Saúde Coletiva, atuando principalmente em ensino, pesquisa e consultoria nos seguintes temas: ética da pesquisa, bioética, medicina social e filosofia da saúde.

Ana Valéria Machado Mendonça, Universidade de Brasília

Professora adjunta IV do Departamento de Saúde Coletiva, da Universidade de Brasília (UnB). Pós doutora em Comunicação em Saúde. Possui doutorado em Ciência da Informação pela UnB, mestrado em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, especialização em Administração da Comunicação Empresarial e graduação em Jornalismo e Relações Públicas. Atualmente é coordenadora do Mestrado Profissional em Saúde Coletiva e do Núcleo de Estudos em Saúde Pública da UnB (NESP/CEAM/UnB) e líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Informação em Comunicação em Saúde Coletiva (CNPq-Brasil)

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Publicado

2021-04-07

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Seção

ARTIGOS ORIGINAIS

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